"Um corpo à espera de ser ocupado." - João Couto
Considero que Corpo e Movimento seja a disciplina
que mais exigiu trabalho e dedicação da minha parte. Nunca foi uma área na qual
me senti muito à vontade, pelo que levei algum tempo até que me conseguisse
integrar e entregar ao máximo. Ainda assim, considero que este semestre tenha
sido essencial para aprimorar a relação com o meu corpo, isto é, voltar a
ganhar consciência do meu corpo e retomar o controlo sobre o mesmo. Pela primeira
vez em meses voltei a sentir-me conectado com o meu corpo e para além disso
senti a capacidade de aprofundar os meus desconfortos ou limites e muitas vezes
superá-los.
A exploração do corpo exige uma grande exposição, implica que façamos uma introspeção para que percebamos se estamos a ser capazes de nos exprimir corporalmente, algo que me deixa extremamente desconfortável, não o facto de me expor mas o facto de ter de explorar possíveis traumas que impedem uma expressão clara do corpo e do movimento. Durante grande parte do processo de trabalho senti uma vergonha de me expor e senti que o meu movimento não tinha nexo e que tinha uma leitura bastante bruta e primitiva. Por incentivo de uma força maior, tive a capacidade de aprofundar a minha relação com o meu corpo, o que me felicitou bastante por finalmente conseguir reconhecer algum valor no meu movimento e por finalmente conseguir aprimorar a relação entre a minha perceção da realidade e a realidade em si.
Sempre tive uma grande dificuldade em saber conectar
as minhas emoções com o movimento, senti isso intensamente quando me vi
confrontado com o método de trabalho. Este confronto deveu-se acima de tudo ao
facto de não ter a coragem para me expor, não ter a coragem para aprofundar o
que sinto, não ter a coragem para sentir. O primeiro momento em que me permiti
sentir algo e que tive vontade explorar esse sentimento foi no ensaio para a
nossa aula aberta, no Polo dos Leões. Considero que a terra seja um dos meus
elementos e portanto aquele foi um momento de conexão com a terra e com a minha
pessoa. Por fim tinha espaço mental para explorar o meu corpo em movimento. Até este momento, considero que tenha sido mais observador, tentei absorver as propostas que os outros corpos me davam, tentei entender quais eram as motivações dos outros corpos, fiz tudo o que podia achando que essa seria a solução para o meu corpo. Enganei-me, bastou conectar-me comigo para que sentisse o meu corpo a respirar e a descomprimir.
Após este momento de "breakthrough" fomos obrigados a interromper o processo de trabalho, esta paragem fez-me duvidar bastante daquilo que já tinha conquistado. Determinado a não perder esta conquista mantive o meu corpo o mais ciente possível do movimento, estimulando-o para que não regredisse. Quando nos voltámos a reunir, a minha disposição para a aula em si foi completamente diferente, senti que de alguma forma estas aulas me estavam a permitir ir mais fundo no autoconhecimento do meu corpo.
Com o semestre quase a acabar ficámos
encarregues de preparar uma apresentação individual que refletisse e englobasse
tudo aquilo que tínhamos trabalhado até então. Foi algo bastante assustador
para mim, não sabia de onde partir nem como chegar ao ponto de partida. Não fazia
a mínima do que queria transmitir e portanto decidi apenas ouvir uma música e
deixar que o meu corpo me guiasse. A escolha da música, ainda que tenha sido difícil,
foi a parte mais fácil para mim. Sabia que queria algo animalesco com uma
batida por trás, acabei por escolher um trance psychill. Enquanto a música
tocava, o meu corpo dançava com ela, comecei a sentir que mesmo assim não
estava a exprimir algo. Tentei ao máximo explorar e aprofundar a emoção que
estava a impulsionar o movimento, mas não fui capaz. Como sabia que teria de
conseguir apresentar algo, deixei apenas que a apresentação servisse como um género
de purga, deixei que o meu corpo se conectasse consigo próprio através da
música. Permiti-lhe que cedesse aos seus instintos. Permiti que fosse apenas a
emoção a comandar o meu corpo, sem influência alguma de uma parte mais
racional. Senti o meu corpo e este fez-se sentir.
Um corpo à
espera de ser ocupado
Uma respiração ofegante apodera-se deste corpo
inerte. As veias ocupam-se agora de movimento. A cada inspiração o movimento
intensifica-se. Abandono as amarras que me prendiam neste chão há demasiado tempo.
A custo, ergo-me como uma semente que brota da terra. A leveza do ar que me
corre nas veias alimenta-me. Transporta-me para outras realidades, para outros
corpos. Sinto uma ânsia que me impede de me mover. A inércia do movimento
torna-se sufocante, fazendo com que novamente o chão tenha de me amparar. Determinado,
cresço de novo. Uma força apodera-se do meu corpo e faz com que este se mova tão
delicadamente que o movimento não quebra. Enraizado na lama, começo a
conectar-me com a minha essência de novo. Esta lama que me afaga a pele apaga
tudo aquilo que me rodeia. Faço agora parte dela e ela de mim. Bebo da sua
sabedoria. Vou-me enterrando cada vez mais. Encontro uma pedra! Não consigo
passar, estou estagnado. Tento apropriar-me do meu corpo como tentativa de
salvação, mas sinto que já não me pertence, existe algo maior que eu que me
controla. Estagnado, espero apenas que em breve a vida decida invadir-me. Pergunto-me
até quando serei apenas um corpo que vagueia por aí sem propósito, até quando
terei de lutar para afirmar o meu corpo? Numa última tentativa, debato-me
comigo próprio e com a ideia de não conseguir recuperar o meu poder, enfrento
agora todos os meus demónios, munido de força e coragem. Embato de novo, desta
vez tenho dificuldade em reconhecer aquilo que me impede de avançar, não por me
ofuscar mas porque não consigo aceitar o que vejo. Esta visão amadurece-me, deixo
de ser apenas uma semente e passo a ter caule e folhas, em breve irei florir. A
brisa que me move agora invade-me o corpo. Potencia o movimento que há muito se
julgara ter sido apagado. De repente, uma efervescência faz-se sentir, um corpo
vazio enche-se agora de vida. Uma vida que apesar de frágil tem uma coragem
animalesca de se apropriar do movimento. Finalmente flori. Aproveito enquanto a
aragem me faz dançar mas permaneço alerta para que a efemeridade da vida há de
se fazer sentir. Acabo como comecei, um corpo inerte no chão.
João Couto





Comentários
Postar um comentário