Sente-te livre e deixa fluir

 

Sente-te livre e deixa fluir

 

Progresso é onde há modificação constante e progressiva, alterando um estado ou uma condição. Não bastando é importante referir que o processo é um caminho do conhecimento do nosso querido movimento, sendo que este pode ir e vir, progredir e mesmo regredir, já que o corpo é bem complexo e a vida tem muitos imprevistos, ou como a professora diz “a vida é bem louca”; não esquecendo também que podemos considerar a experiência como parte do progresso já que esta é um processo prático que se desenvolve dentro de cada um de nós.

Sempre gostei de dançar, sendo honesta, mas sempre vimos na televisão que os dançarinos têm de comer pouco, têm de ser magros e altos e bem… de todo que sou o oposto, e inevitavelmente e inconscientemente durante os meus anos de vida não me deixei entregar há dança e há exploração de movimentos pelo que me foi incutido pela sociedade; isso e muito mais, como comentários maldosos que as pessoas têm por hábito fazer. No texto de Hubert Godard, “Gestos e perceção” houve uma frase que me tocou e senti que tinha haver com este tema “Cada individuo, cada grupo social, em ressonância com o seu ambiente, cria e é submetido a mitologias do corpo em movimento que constroem quadros de referência variáveis da perceção”; ou seja, nesta frase senti muito aquilo que falo quando me refiro há pressão social, pressão esta que impõe que sejamos de certa forma e que só assim seriamos bem-sucedidos e aceites nesse meio. Obviamente que com isso sempre pensei “como é que uma pessoa como eu, com excesso de peso será aceite nesta área; como é que as minhas propostas serão aceites se tenho este aspeto”, sendo assim visível a minha preocupação com os olhares exteriores e mesmo comentários, que sendo sincera foi o meu maior tabu deste semestre, o não me sentir à vontade com o meu corpo para me entregar e corpo e alma a esta cadeira já que “A singularidade do sentir-seu-corpo cede seu lugar ao querer-parecer com as formas dos corpos representados nas Mídias”, pois como referi anteriormente é complicado para pessoas que não são ditas como “normais” ou são caracterizadas pelo seu aspeto de forma diferente na sociedade permitirem-se desenvolver sem serem comparadas, mesmo que apenas interiormente no sentido de nos mesmo nos criticarmos a nos mesmo, com outros, ou melhor com aquela modelo ou com aquela bailarina que tem tanto jeito, acabando inevitavelmente por transformar a mente humana.

         Ora então, como podemos verificar o meu maior desafio deste semestre não foi entregar-me de alma, mas sim de corpo, enfrentar este tabu tão conhecido na sociedade que temos hoje. Com isso posso referir o quão difícil foi, não tanto entregar-me às propostas feitas, mas sim desligar a mente do corpo para permitir a ele fazer o que bem sentia e o que queria, deixa-lo ser livre e único.                 


       Nesta foto ainda é visível o meu medo, a minha falta de à vontade para com tudo, tanto o meu corpo como o que é que as pessoas de fora, que não passavam nos meus colegas que estavam e estão la apenas para me ajudar, e ainda para com os meus “bichos” interiores. Embora isso foi de facto uma aula muito engraçada e dinâmica, mas também desconfortável. Borboletas como nos que estávamos habituados a um chão de mármore, mas limpo e sem perigo no sentido de nos podemos mandar para o chão sem haver um vidro deparamo-nos com um jardim cheio de pedras, ervas daninhas, vidros e não sabemos mais o que. Independentemente notou-se o amor que a turma tem para com o curso e uns com os outros já que embora todas as adversidades que apareceram neste dia já que com o passar do tempo se entregou sem medo, ou quase, aos exercícios, não importando mais as condições que tínhamos.

            Permito-me dizer que foi nesta aula que me deu um grande clique e que percebi que somos todos diferentes e temos todos trabalhos bonitos na mesma.

         Com isso peguei nas falhas como ponto de partida, e com o decorrer das aulas comecei aos poucos a aceita-las; então passei pela exploração de espaço e do meu próprio corpo e, além de conseguir soltar-me da tensão e dos nervos, senti que estava a criar algo genuinamente bonito, algo que não sabia se era bonito e aceite aos olhares exteriores mas que para mim eram- deixei então, que as vozes negativas de fora e “regras” que a sociedade construiu; não permiti que se apoderassem mais de mim quando eu realmente sinto e sei que estou a fazer algo bom e belo- quando me estou a descobrir. Consegui muito essa descoberta quando por exemplo fazia a saudação ao sol e nos deixávamos envolver pelo toque da pele, onde nos deixamos guiar pelo que sentimos, e eu só sentia liberdade, prazer, sentia-me eu mesmo e por vezes emocionava-me por perceber o quão bem aquilo me fazia, tanto ao corpo como a alma; consegui-me sentir parte de algo, um algo tão bom e vibrante. Além da saudação ao sol, quando nos acariciávamos ou tentávamos sacudir algo de nos eu senti -me potente, poderosa no sentido de que finalmente estava a conseguir agarrar no que me fazia bem e receber de braços aberto e pelo contrario expulsar todas as energias negativas que estavam dentro de mim.

         Como um culminar deste processo de descoberta tivemos a performance… Bem ninguém imagina quantas noites de sono este trabalho me tirou, não por estar horas e horas a estudar/praticar, mas sim pelo nervosismo de me expor frente há turma SOZINHA. Foi engraçado porque percebi que já funcionava bem em grupo, quando estávamos todos na mesma onde e envolvidos numa só vibração, mas quando me deparei que tinha de me expor sozinha foi algo tenso.

         Comecei por pensar numa música que sabia que o meu corpo respondia, o que até foi fácil; o pior foi a sensação que eu queria demonstrar… Com isso comecei a pensar no que realmente me impediu de, desde início, ser quem eu sou e me deixar envolver com tudo. Ora então decidi mostrar garra, coragem e mostrar o meu corpo, onde escolhi um figurino minimalista com o poder de que os meus colegas de focassem no que eu estava a fazer e de como o corpo humano pode ser bonito independentemente da sua forma e cor.

         A performance tornou-se um pouco sensual, não foi no sentido de ser banal foi mais porque eu senti que era isso que queria fazer na hora, foi algo que tomou conta do meu corpo já que desde sempre que senti que como tenho excesso de peso e celulite não podia ser sensual, não podia mostrar o meu corpo. Sendo assim, foquei-me em contar uma historia onde comecei em bolinha e aos poucos fui deixando o corpo tomar conta dele mesmo e fazer o que sentia, nunca esquecendo o que aprendíamos nas aulas, as pausas que tornam os movimentos impactantes e também são boas para respirarmos e tirarmos proveito do momento; os impulsos para chamar a atenção do publico que espera o que pode de ali surgir; o enraizamento que nos coloca com os pés bem assentes na terra que não nos deixa ir para outros mundos e nos permite ter uma boa base de equilíbrio ou não. Durante a performance quis mostrar a história da minha vida, tendo então começado em pequeno e deixando o corpo fluir como referi anteriormente; demonstrei por vezes com certos movimentos a falta de equilíbrio; e não menos importante as quedas e a tentativa de voltar a subir, passando sempre pelo nível baixo, medio e por fim alto.

         Com a performance quis sensibilizar os meus colegas a que tudo é possível, que com coragem conseguimos ser quem queremos e sonhamos mesmo com comentários projetados da sociedade; a sociedade somos nos e somos nos que impomos um padrão.

         Por fim, que expressar o meu agradecimento pois sem estes meses não conseguiria ter começado este caminho de luta e coragem que há tanto ambicionava (pode não ser importante, mas mostrei o vídeo a amigos e família, e sempre tive muita vergonha que gente que eu conheço e amo veja o meu trabalho, porque a opinião deles realmente importa, mas desta vez senti.me mesmo confiante para me expor, expor o que eu sou). Além disso consegui descobrir uma parte de mim adormecida e aprendi várias bases que me vão dar para a vida, não só profissional como pessoal.

         Agradeço tanto há professora como aos colegas por terem proporcionado estes momentos. Estou eternamente grata.

               













                                                                                          Beatriz Gonçalves Dias

                                                                                             Fevereiro de 2021

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