Corpo e Movimento Cénico I-Xavier Guerreiro

 

Corpo e Movimento cénico uma unidade curricular de descoberta, de consciência corporal e a dualidade do nosso corpo e o poder das emoções e estados de espírito no mesmo. Esta disciplina não foi totalmente uma novidade para mim, por já ter leccionado durante três anos no meu curso profissional uma disciplina com um tipo de conceito semelhante, em que pude descobrir várias metodologias desde teatro dança, viewpoints, a suzki e já chego a Évora também com alguma experiência em dança, por fazer parte de uma escola de samba onde faço atuações e desfiles de carnaval como malandro. Ao chegar a Évora, talvez por já ter alguma experiência tanto académica como profissional, criei uma expetativa em relação ao curso, daquilo que ia receber e os desafios que me iam propor e a realidade não correspondeu à minha expetativa, então no inicio andei muito desmotivado com o curso em geral, não me identifiquei logo à partida com o grupo, estas condicionantes todas juntas, prejudicaram talvez um pouco o meu processo numa fase inicial destas aulas, porque não sentia que tinha que dar mais do que aquilo que estava a dar inicialmente, sei que algo mudou naturalmente e nem sei bem quando, acho que talvez o facto de o grupo se ter separado em dois turnos criou para mim uma melhor dinâmica e inatamente comecei a entregar mais de mim e a depositar uma carga emocional genuína em tudo o que fazia. No decorrer desta cadeira as sensações que mais me acompanharam ao longo do meu trabalho foi a sensação de liberdade e de aceitação.

Liberdade criativa e aceitação de mim para mim, acho que esta cadeira me relembrou o quanto gosto desta área em todas as suas vertentes, posso até acrescentar ainda que foi de alguma forma a única cadeira que me deu motivação, mesmo tendo dias em que estava desmotivado. Esta cadeira fez me relembrar técnicas já adquiridas e a desconstrução e variadíssimas maneiras de as fazer, fez me aceitar o meu corpo, mesmo que ainda seja uma relação um pouco de amor-ódio, é uma relação com algum tipo de amor hoje em dia. Tive algumas dificuldades em não aplicar as técnicas que já conhecia, então foi muito interessante esse processo de desconstrução e desafiante. Por estas mesma razões decidi juntar a técnica do samba que já possuía , às técnicas adquiridas em aula, curiosamente a própria dança que é o samba está relacionada com as técnicas de Klauss Vianna, tendo em conta que esta dança usa os 8 vetores do nosso corpo.

A palavra samba procede da expressão africana semba, contudo, a palavra samba na sua origem era utilizada como sinónimo de festa e não como um género musical, para contrariar essa associação de samba a festa, folia , escolhi a música Samba Triste interpretada por Ana de Hollanda, como o nome da música indica é de facto um samba triste, um samba das almas vencidas, a música tem também influências de jazz o que me permitiu ainda mais explorar o meu corpo sentindo a música, porque o meu corpo tanto sentia a melodia do cavaquinho como a do saxofone, por essas mesmas razões a desconstrução do samba foi algo que nesta música deu para fazer quase que inatamente, o samba no pé associei ao enraizamento leccionado em aula, porque o próprio o samba no pé é um enraizamento, os passos de malandro, vivem muito do contratempo e da pausa, então naturalmente pude usar esse fator, tendo em conta que era também uma das matérias, o resto da música o meu corpo falou por vontade própria, passando pelos impulsos, projeções, acho que a própria performance foi uma história contada de mim, para mim.

“Samba triste das incertas madrugadas.

Samba triste, ecos de passos nas calçadas.

Samba triste, de São Paulo na neblina

Na garoa muito fina, nas luzes amortecidas.

Samba tão triste, samba das almas vencidas.

Cada boêmio que passa na rua

É sapo a sonhar com a lua

Cada mulher, mariposa de asas queimadas,

Que desencanto nessas vidas,

Pela neblina envolvidas,

Perdidas na madrugada.

Que desalento em meu olhar,

Que tristeza em meu pisar,

Ecoando sozinho na calçada.”


Agora que reflito sobre a escolha da própria música e a história que quis contar reparo que a própria música está um pouco relacionada com o meu percurso, tendo em tudo o que me proponho a fazer, tento sempre pôr a carga emocional que sinto nesses momentos e acho que podemos até com a letra do próprio samba fazer uma alusão ao meu percurso, ainda sou um sapo a sonhar com a lua, um sapo que quer chegar à lua e ainda não sabe como lá chegar, mas que tenta, que desiste, que sente, que se sente só… Ao inicio estava muito reticente sobre aplicar samba na minha performance, tinha medo que não percebessem, que não gostassem, medo que o meu samba ficasse a ecoar sozinho na calçada. Mas que samba feliz que foi, a todos os níveis, pessoais , artísticos e académicos.

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