Braços ao Sol-Beatriz Silva
Capítulo I- Braços ao Sol: sobre o contributo dos Vianna
O meu objetivo é a liberdade, o meu obstáculo era o medo. É meu o objetivo, porque
sou eu que o desejo, era meu o obstáculo porque fui eu que o criei.
Queria saudar o sol, mas os meus músculos mirraram: apesar dos esforços para levar os
braços ao sol, não se moveram.
Para ultrapassar o medo é preciso primeiro ser-se possuidora de um.
Nas aulas seguintes o meu objetivo mantinha-se, mantém-se.
A professora pediu para que nos sentássemos e para massajarmos os nossos pés, que são
o início do nosso corpo. O início do nosso corpo! O que nos liga ao mundo! O que nos
liga à terra!
Eu nunca gostei dos meus pés, não gosto, os dedos dos meus pés são cumpridos e tortos,
curiosamente parecidos com raízes…
Continuo a não gostar deles esteticamente, mas é uma forma interessante de pensar
neles. Afinal, lembra-me da sua verdadeira importância, eles erguem-me.
Bem, a professora pediu para que explorámos os nossos ossos dos pés.
E explicou-nos a função dos ossos na sustentação do nosso corpo e nos nossos
movimentos e que a força exercemos no chão é a que nos levanta e as articulações
ósseas funcionam como alavancas para a verticalidade e os movimentos do corpo
humano.
E visto que os pés são o início do nosso corpo e são o que nos sustenta, devemos ter
atenção à sua constituição – respiro melhor por conhecer os meus pés!
É algo que me tem acontecido muito nas aulas de Corpo e Movimento Cénico, descobrir
ossos e músculos que não tinha a consciência que existiam. Ou melhor, eu sabia que
eles lá estavam, mas não sabia que os conseguia manusear de formas diferentes, ou
talvez, mesmo já o tendo feito, nunca tinha prestado atenção. Por exemplo, os ísquios.
Conhecendo estes ossos, houve um ganho de concentração sobre eles durante a pratica
dos meus movimentos. Identifiquei-me com a consideração de que a Técnica de Klauss
Vianna é “Consciência em Movimento” (Miller & Neves, 2013) .
Então, ganhei consciência que para ser uma melhor atriz, e ter melhor perceção do meu
corpo e dos meus movimentos é preciso conhecer os seguintes vetores: metatarso,
calcanhares, sacro, escápulas, cotovelos, metacarpo, sétima cervical
Na realidade, os vetores traduzem instrumentos de trabalho, ou seja, podere, de hoje em
diante, usar esta organização corporal para trabalhar e melhorar a minha técnica
expressiva e para transmitir mensagens. Penso que foi muito interessante verificar que o
corpo pode aprender e que o teatro pode também aprender com técnicas e metodologias
que têm origem em artes performativas diferentes, neste caso, a dança (Tavares, 2008)
– portanto, que há uma sobreposição irmanada entre aqueles que usam o corpo para
trabalhar
De certa forma, a técnica que Klauss e Angel desenvolveram pode ajudar-me por muito
tempo, já que me dá um racional para ensinar o meu corpo e o manter consciente das
suas possibilidades. Seria interessante terminar este trabalho daqui a 40 anos e comparar
as consciências diferentes!
Sei que a técnica me oferece uma referência para trabalhar o meu corpo – portanto, que
funciona como um guia – mas que não me dá as respostas todas, ou seja, que há ainda
espaço para descobrir a partir desta base de trabalho.
Capítulo II-(Des)construção
Estou gestualmente condicionada? Zanguei-me nesta reflexão, porque me confrontou
com graus de liberdade. Deveria ter experimentado mais? Atuado mais? Gestuado mais?
Com quem me devo zangar?
Entretanto, felicitei-me porque diariamente pratico a desconstrução de ideias
preconcebidas, de estereótipos, sejam estes preconceitos dos meus amigos, da minha
família, ou meus. Agora passei também a desconstruir ideias preconcebidas dos limites
do meu corpo e dos meus padrões motores.
Resolvi, neste processo, um poema de Jorge de Sena (Cantado por José Afonso), A
epígrafe da arte de furtar:
Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei
Roubam-me a Pátria
e a humanidade
outros ma roubam
Quem cantarei
Sempre há quem roube
Quem eu deseje
E de mim mesmo
Todos me roubam
Quem cantarei
Quem cantarei
Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei
Roubam-me a Pátria
e a humanidade
outros ma roubam
Quem cantarei
Roubam-me a voz
quando me calo
ou o silêncio
mesmo se falo
Aqui d´El Rei.
É que não mais ficarei furtada de gestos do corpo. É, pelo menos assim que entendo o
que foi ocorrendo ao longo das aulas. Através de alguns métodos de educação somática
consegui o meu descondicionamento gestual – e fico com essa possibilidade para cada
ação no teatro e na vida.
E assim poderei ser genuína – somaticamente genuína, porque tenho meios para o fazer
continuamente.
E assim poderei estar consciente, mais consciente, treinar a consciência, ser consciente
– para que possa regular o corpo e o que exprimo através dele.
No processo e daquilo que fui experimentando e aprendendo nas aulas, tenha algo a
refletir sobre o processo.
A diminuição do ritmo dos meus movimentos permite-me prestar atenção aos
detalhes do meu corpo enquanto os realiza. A pressão que estou a fazer sobre o chão, o
espaço entre os dedos das minhas mãos e pés, a posição do meu pescoço, a extensão dos
meus braços, o movimento dos meus cotovelos, a vastidão ou o mirrar das minhas
pernas, o ganho de consciência das minhas vísceras e da velocidade da minha
respiração, o ganho de perceção do espaço (onde estou, para onde me posso dirigir), o
estender da pele da palma da minha mão a tocar a alcatifa, o sentir dos cachos do meu
cabelo a deslizarem pelas costas, a certeza do frio ou do calor que pesa na minha pele.
Com a diminuição do ritmo, tenho tempo de explorar os meus movimentos com mais
atenção e tenho a oportunidade de os prolongar, tornando-os mais precisos, mais
expressivos, diferentes dos que fiz anteriormente. E, sobretudo, ganho convicção na
importância do tempo. Se ele é finito, talvez o que nele fazemos o possa não ser.
A automassagem auxilia-me bastante na perceção dos meus músculos, articulações,
ossos e pele, desperta o meu corpo e desperta-me, lembra-me de sentir. Às vezes
esqueço-me de o fazer, às vezes a vida não mo permite; por vezes sentir é automático,
como a respiração – a automassagem ajuda-me a regular.
Amassar a minha face permite que me recorde que tenho controlo sobre ela. O subir da
sua temperatura, o aumento da sua vermelhidão, o sentimento de formigueiro que as
minhas mãos lhe deixam. A consciência da minha carne.
A massagem aos meus pés e aos osos e músculos que os constituem, permite-me ter
consciência do início do meu corpo, daquilo que me sustenta todos os dias, da tensão
que existe neles devido a esse trabalho de me carregarem e do que posso fazer para os
relaxar. Tenho novos músculos!
Com o ganho de consciência de novos músculos, articulações e ossos, tenho novas
oportunidades de exploração e experimentação de movimentos e dos meus limites.
A interpretação da diretriz verbal permitiu-me explorar os meus movimentos, uma
vez que a professora não mostra os movimentos que pretende que eu faça, eu tenho de
interpretar as suas palavras e descobrir com o meu corpo o movimento – sou criadora,
sou construtora, porque a minha criação interage com outros.
E se eu esticar o braço? E se eu torcer o joelho? E se eu encolher a perna e se eu arquear
as costas e se der seis passos para trás e se der sete e se eu entortar a coluna e se eu
apertar as mãos e se eu correr e se eu cair e se eu apertar os meus pés e se eu suportar o
meu corpo com o meus calcanhares? E se eu o fizer?
Se eu o fizer, eu sinto, eu descubro – talvez surpreenda. E é bom saber disso. Sigo então
em busca destes movimentos que não conhecia e destas capacidades que não sabia ter.
Crio, saio do habitual, desconstruo-me para depois me reconstruir com novas
aprendizagens, novas capacidades motoras e ainda com espaço para novas
desconstruções, quantas forem necessárias.
Através deste processo de desconstrução e descondicionamento, eu ganho consciência
sobre o meu corpo, a minha unicidade, a minha energia, as minhas novas capacidades,
ou anteriormente existentes, mas que desconhecia. Isto não penas mudou as minhas
capacidades motoras como também me mudou. Passei a ter um novo conhecimento do
meu corpo, um novo controlo sobre mim (a tal história do meu corpo e das suas
circunstâncias), uma nova bagagem de movimentos e ideias – ainda não lhe quero
chamar de repertório -, uma nova consciência dos meus hábitos e uma nova aptidão de
os controlar, ainda que momentaneamente. Este alerta para endireitar a coluna, relaxar
os ombros, direcionar os ísquios para baixo, mesmo que não a todo o tempo, ele existe e
eu tenho esse controle sobre.
Passou a ter sabor, passou a saber bem. Durante tanto tempo o controlo fugiu-me e
agora tornou-se mais conhecido. Nina Simone já o tinha cantado – como posso incluir o
ritmo? É o ritmo do dia-a-dia:
Ain´t got no home, ain´t got no shoes
Ain´t got no money, ain´t got no class
Ain´t got no skirts, ain´t got no sweaters
Ain´t got no perfume, ain´t got no love
Ain´t got no faith
Ain´t got no culture
Ain´t got no mother, ain´t got no father
Ain´t got no brother, ain´t got no children
Ain´t got no aunts, ain´t got no uncles
Ain´t got no love, ain´t got no mind
Ain´t got no country, ain´t got no schooling
Ain´t got no friends, ain´t got no nothing
Ain´t got no water, ain´t got no air
Ain´t got no smokes, ain´tgot no chicken
Ain´t got no
Ain´t got no water
Ain´t got no love
Ain´t got no air
Ain´t got no God
Ain´t got no wine
Ain´t got no money
Ain´t got no faith
Ain´t got no God
Ain´t got no love
Then what have I got
Why am I alive anyway?
Yeah, hell
What have I got
Nobody can take away
I got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth
I got my
I got myself
I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver
Got my blood
I´ve got life
I´ve got lives
I´ve got headaches, and toothaches
And bad times too like you
I got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth
I got my smile
I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobs
Got my heart, got my soul
Got my back
I got my sex
I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver
Got my blood
I`ve got life
I`ve got my freedom
Ohhh
I`ve got life!
Capítulo III-Peso e Contrapeso
era o da extensão. Quanto tempo de gravação deveriam permitir? Optou-se por quase 80
minutos, porque essa era a versão mais longa da Nona Sinfonia de Beethoven – de que
um dos inventores era um grande fã.
Se as partituras podem ser interpretadas e os tempos musicais (a que estou habituada a
ser seguido por metrómetros) podem-se estender ou diminuir, como não os gestos, as
ações e as expressões?
O meu estado emocional tem incidência no meu corpo, na minha postura. Recordo-me
de uma aula em particular em que, no dia anterior à aula, tinha passado por uma biopsia,
estava ainda com dores, com receio de me magoar, não tinha sido obviamente uma boa
experiência e não estava bem-humorada. E esta tristeza e este receio que levei para a
aula expressou-se através do meu corpo, dos meus movimentos, da minha postura, do
meu rosto e da minha energia.
Num entanto, também o contrário acontece, também a minha postura e também os meus
movimentos têm influência no meu humor, na minha energia, na minha postura e na
minha disposição.
Recordo-me também de um dia em que estava com muitas cólicas, não me conseguia
concentrar em nada para além da mantida dor. E eu peguei nessa dor e leveza para os
meus movimentos novamente, mas, desta vez, ao movimentar-me, ao ouvir a música, ao
experimentar o corpo, eu esqueci-me da dor; depressa ela voltava, mas por aqueles
momentos de euforia, o meu corpo controlava o meu estar e energia.
A magia do movimento é esta unicidade. Unicidade que pertence a cada um de nós;
nunca um movimento será igual ou terá o mesmo significado para pessoas e momentos
diferentes. Será o movimento ou a pessoa que muda? Ou ambos? Ambos. Como pode
haver um movimento certo ou movimento errado?
O desenvolvimento da consciência do meu centro de equilíbrio, da minha a capacidade
de sustentação e o ganho de consciência da pressão que o meu corpo provoca no chão,
permite-me ter mais controlo sobre os meus movimentos, sobre o meu corpo, no fundo,
até mais controlo sobre a minha concentração e sobre o que esteja a sentir no momento.
Desenvolvi algum domínio da minha organização gravitacional e dos movimentos que
consigo fazer, dentro deste controle, mas também me dei oportunidade de desequilibrar,
de cair, de aproveitar a queda, e depois de me tornar a erguer.
Experimentei também o pré-movimento, pensar para onde me quero dirigir, que
movimento quero fazer, antes de o sequer realizar e, depois, colocá-lo em prática.
É interessante o colocar da emoção nos movimentos, mesmo que não sejam emoções
minhas, mesmo que não sejam emoções presentes, colocar a minha perceção no
movimento que escolho fazer. Às vezes pergunto-me sobre o que estarão os meus
colegas a pensar. O que é que a mesma música trará de diferente aos seus corpos e às
suas mentes.
Enfim...Resumo do auto-conhecimento
Tenho segmentos
Tenho peso
Tenho sentimentos
Tenho cultura
Tenho histórias
Tenho instrumentos para lidar com eles
Tenho de os aproveitar



Comentários
Postar um comentário