Aceitação do Constrangimento-Alexandra Rodrigues
3 meses, 1 semestre, 2 aulas por semana, 3 horas por dia.
Cheguei a Évora com a memória e a sensação de que o meu corpo era somente isso, um corpo. Um corpo muitas vezes incapaz de se expressar, de construir, de realizar. E talvez estivesse a ser dura comigo mesma, afinal cada corpo tem o seu tempo.
Antes de chegar a esta licenciatura eu estive 2 anos parada,
sem exercer qualquer tipo de atividade relacionada com a arte. Foram 2 anos
desgastantes para mim, 2 anos em que perdi tudo o que tinha construído durante
os 3 anos de ensino secundário num curso profissional de Teatro. Não se perdeu
a técnica e as aprendizagens, mas a vontade de as meter em prática.
Em relação ao movimento e à dança, nunca senti que houvesse um à vontade meu para o fazer, tudo o que eu sentia era desconforto. Eu sou demasiado dura comigo mesma, eu tenho essa noção.
Quando cheguei a Évora, a minha maior insegurança era dançar,
mexer-me em frente a tantas pessoas, mas mudou.
A abordagem da professora às aulas fez-me perceber e encaixar
que todos nós, com as dificuldades de cada um, temos poder sobre o nosso corpo.
E então eu dancei.
Senti-me frágil, assustada, mas tentei.
Foi interessante perceber o que o nosso corpo consegue fazer,
e com as sugestões dadas em aula eu descobri que o movimento é infinito e que
só depende da nossa imaginação.
A parte mais dolorosa para mim foi quando nos foi ensinado a
saudação ao sol. Eu tenho alguns problemas nas costas e no ombro, e enquanto
que eu percebia que esse exercício servia para nos fazer focar, sentir e
libertar, eu sentia completamente o contrário. E são nessas alturas que nos
sentimos incapazes. Se não conseguia fazer uma coisa tão simples como é que
faria no futuro?
Logo nas primeiras aulas, uma das coisas que foi falada pela
professora é que tínhamos de sentir e perceber o nosso corpo, os nossos ossos,
as nossas articulações. A postura que cada um de nós exerce no dia a dia ou
mesmo numa atividade especifica vai sempre restringir a forma como a fazemos. E
eu lembro-me que uma das correções que eu tive que fazer foi em relação aos
isquios. Nós muitas das vezes não percebemos a importância disso, mas a atenção
que temos à nossa postura vai sempre influenciaras nossas ações. E podemos
notar isso quando fazemos as projeções ou quando usamos o equilíbrio como parte
de uma performance.
E talvez por isso tenha sido tão importante a “coreografia”
criada para apresentar na aula aberta.
A coreografia abordava várias coisas que fomos aprendendo ao
longo do semestre, e num espaço de 30 minutos tivemos que encaixar um bocadinho
de cada uma delas e criar algo apresentável.
A parte que mais gostei e que melhor me fez sentir foi a do enraizamento em que ao mesmo tempo que o íamos fazendo estava a tocar a música “ Paciência”. O estímulo musical é super importante, faz com que nos envolvamos com ele e com o nosso corpo, fica mais fácil de criar e de sentir.
Eu uso muito a palavra “sentir” porque para mim movimento e
dança têm tudo a ver com isso, e as próprias aulas transmitiam isso mesmo.
A minha performance final foi espelho do que eu aprendi.
Apliquei tudo o que sabia e no final consegui, finalmente, gostar de mim.







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