A perceção e o desenvolvimento do meu corpo-Joana Rosa

 

Já imaginaram uma bailarina com uma experiência de mais de cinco anos mudar a sua forma de dançar ou de se expressar? E uma cantora de lírico mudar para pop do dia para a noite? Bem, foi isso que aconteceu comigo quando entrei nesta aventura de tentar perceber melhor como funcionava o meu corpo e o que estava por “detrás” da minha pele. Obviamente que não mudei da noite para o dia, mas sinto que com esta experiência adquiri um novo conhecimento sobre o meu corpo e emoções que até então desconhecia.

 Eu fui ginasta durante muitos anos. A minha vida desde cedo foi passada a fazer pinos, pontes e equilíbrios, desde que me conheço por gente. Todos os alongamentos que fazíamos até então eram de flexibilidade e de articulações. Não sei como é que numa me perguntei, nessa altura, como funcionava uma articulação para ser sincera.

Quando comecei esta experiência foi-me pedido para ter a perceção das minhas articulações, dos meus ossos, como estes se podiam mover e a perceção da existência dos mesmos no meu corpo. Estranhei aquilo. Toda a minha vida tinha feito aquecimentos corporais e nem me tinha dado conta de certos detalhes do meu corpo que até àquele momento eram inexistentes, ou então estavam esquecidos. Ao perceber, primeiramente, como funcionavam as articulações dos meus pés, tentei integrá-las num exercício chamado “enraizamento”, que consiste em conectar-se com o chão, apenas com os pés em contacto com o mesmo, e a partir daí, entender como funcionam as nossas articulações, movimentando os maléolos, contraindo ou não os dedos, para ter uma melhor perceção dos ossos, e dar passos, sentindo também o peso do corpo sob os pés e o que os mesmos podem fazer para nos levar a dar outro passo. Apesar de levar este exercício com estranheza ao início, comecei a perceber a sua importância para a perceção do corpo humano, afinal, são eles, na maioria das vezes, que nos ajudam a deslocar. Tal e qual como os pés também comecei a dar mais importância á perceção de outras partes do meu corpo, como a anca, as omoplatas, os braços, a cabeça e até dos órgãos internos do meu corpo. Se isso foi estranho para mim? Sim, foi. Pensava muitas vezes, mas porque raio é que eu preciso de saber isto? Porque raio é que eu preciso de saber o que é que é o metatarso? Simples! Agora eu percebo que preciso de saber isso porque são essas partes do meu corpo que me vão ajudar a executar algum movimento.

 

Mais tarde, com o decorrer de todas estas aulas, começamos a treinar outro tipo de movimentos, como por exemplo alavancas, impulsos, saltos, pausas, com o acréscimo dos estágios (baixo, médio e alto). Como já detinha de alguma experiência, deixei-me levar por representações e imagens do passado e comecei por realizar movimentos mais sensuais e dentro dos padrões limitando-me áquilo que já sabia. Mesmo estando na minha zona de conforto realizando movimentos mais leves, sensuais e “angelicais”, tinha medo de sofrer algum tipo de troça por parte dos meus colegas. Acho que as minhas inseguranças falaram mais alto e por isso me escondi naquilo que conhecia e que sabia que talvez fosse ser aceite e não procurei (no inicio) fazer coisas diferentes. Mas com o tempo e com o conhecimento que agora já procurei inovar. Sempre fui muito de me inspirar nos outros para criar algo meu, então foi o que eu fiz. A interação com as outras pessoas fez-me abrir os olhos e mudar o meu ponto de visão acerca dos meus movimentos. Se os outros podiam ser mais bruscos e “desengonçados” porque é que eu não podia. Assim comecei por observar o grupo, cada pessoa emanava uma experiência diferente, uma vivencia diferente, um sentimento diferente, um movimento diferente. Acerquei-me primeiramente, de pessoas com o mesmo padrão que o meu, ou com algum padrão definido. Passando pelas mesmas captava algum tipo de movimento mais distinto dos meus e tentava dar-lhe forma no meu corpo, mas eram poucos segundos… mais tarde tentei cercar-me de pessoas que tivessem movimentos mais disformes ou únicos, tentando captar a essência dos mesmos, mas como antes havia referido este durava apenas poucos segundos no meu corpo… era apenas um momento. O meu apego aos padrões do passado estava tão forte que não me deixava explorar novos tipos de movimentos. Então decidi que ia mudar, e ia começar por mim mesma, esquecendo um pouco os outros, para conseguir mudar de movimentos, deixando assim os padrões do passado de lado. Concentrei-me em mim, e tentei ver o que podia fazer de diferente para evoluir. “E se eu hoje me concentrar mais nos movimentos dos braços?” -pensei, e foi o que fiz. De momento em momento tentava concentrar-me mais numa cerca região do meu corpo, tentando abranger todos os detalhes possíveis dessa mesma região, procurando agora explorar um novo movimento. Mesmo que algum fosse baseado num movimento de alguém já visto por mim, eu tentava criar algo totalmente diferente e ver até onde é que o meu corpo ia! Tentei alternar mais entre os níveis, já que o alto era o mais usado por mim.

 

Para além da minha persistência em mudar, sinto que a música foi um dos fios condutores desta mudança. Ao início era complicado porque me remetia muito para os padrões da minha infância e para as imagens criadas da mesma, mas quando finalmente me consegui concentrar em mim, a música apenas foi um condutor do meu desenvolvimento. E foi aqui que eu comecei a ter consciência da minha concentração. No início era muito complicado para mim deter de concentração no exercício do enraizamento, tanto que me perdia facilmente, e em vez de estar a pensar e a prestar atenção a cada parte e detalhe do meu pé, estava só a fazer um movimento e apenas isso. Quando me comecei a importar com a minha evolução aí sim, comecei a adquirir uma concentração diferente. Como referi, foi um desafio concentrar-me em cada detalhe do meu corpo e na exploração de novos movimentos com uma música que de certo modo, no início deste processo, me atrapalhava. Quando comecei a ter mais consciência

do meu corpo e menos medo de parecer ridícula á frente de toda a gente, consegui ganhar uma ligação muito forte com a música que me fez evoluir de mais. E cada música trazia uma emoção (felicidade, medo, tristeza, alegria, amor, angustia…), e cada emoção trazia uma imagem mental que agora era expressa pelo meu corpo. E assim, com a ajuda da música, percebi que certas emoções guiavam os meus movimentos. Cada emoção trazia á mente uma imagem, já existente, ou então inventada. Lembro-me de uma aula em específico, onde o nosso objetivo era sentir a nossa pele. Nunca pensei que um exercício assim me pudesse remeter para tantas emoções diferentes. Para além disso estas emoções podem também trazer imagens já vivenciadas. Esse dia foi um deles. Senti coisas horríveis do passado, e isso viu-se nos meus movimentos, que ficaram reduzidos. Apesar disso tentei me libertar dessa negatividade e superar esses sentimentos, mas novamente as imagens do passado e as lembranças me fizeram voltar a movimentos mais recolhidos e bruscos. Foi quase como se tivesse a contar uma história, a minha história. Então percebi que cada pessoa conta uma de acordo com as suas vivências, experiências, emoções e imagens mentais, representando-a com o corpo. Acima de tudo consegui ter a perceção de que o meu corpo é a forma de eu me expressar, seja, ou não, com o auxílio de música. Cada música trás um sentimento diferente, cada sentimento uma imagem/ vivencia, cada imagem/ vivencia um movimento, e este conjunto é expresso pelo nosso corpo em forma de poesia.


Joana Lopes Rosa

Nº 48926


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