O meu Florescimento-Melanie Conceição
No início das aulas, confesso que não me sentia cem por cento
confortável. Apesar de ser uma pessoa extrovertida, não era completamente “eu”
e tinha a mera noção que me podia entregar muito mais em todas as atividades
propostas.
Durante este procedimento, também fui alertada em relação à
minha postura, onde tenho um desalinhamento da bacia em relação aos meus
pés fazendo com que os meus ísquios apontem para trás (e não para baixo) inconscientemente.
Assim, isto causa-me um grande desalinhamento total entre as três esferas do
meu corpo, porém com alguns exercícios praticados diariamente propostos pela
professora, e com uma constante consciência do meu corpo enquanto ando ou enquanto
estou parada ajudará a melhorar a minha postura. Deste modo, faço pressão na minha
lombar e na barriga para trás, corrigindo a minha postura, fazendo com que os
meus ísquios apontem para baixo.
Senti-me uma ave livre, posso voar sem ter medo de cair
Muitos dos exercícios feitos em aula me transbordaram
confiança e a ganhar uma consciência dos meus movimentos.
Desde a diminuição do ritmo, onde a professora insere uma
música mais lenta, de modo a que os nossos movimentos se tornem também mais
lentos e que comecemos a ter uma noção da nossa musculatura, tal como o
exercício do Enraizamento, onde nos apercebemos do peso do nosso corpo.
Ou uns dos primeiros exercícios, onde estávamos deitados no chão, a respirar
calmamente e ao som das instruções da professora, nos movimentávamos- a
respiração como suporte do movimento, assim, somos levados aos nossos limites
e potenciais (a interpretação da diretriz verbal).
Também a auto-pesquisa do movimento, cuja a
professora incita o aluno a explorar através dos seus movimentos partes do corpo
“desconexas”- como por exemplo, as minhas mãos que às vezes se encontravam demasiado
pesadas, não seguindo os meus movimentos mais leves, ou até mesmo quando eu não
sabia o que fazer com elas.
A auto-massagem, onde as “costas” e a “barriga” do
nosso pé, os calcanhares e o nosso “estimado maléolo” eram massajados, para que
o nosso sistema propriocetivo fosse reativado.
A busca do esforço justo, onde o aluno tem de começar
a saber distinguir as variações do seu tónus para a realização do movimento
proposto pela professora seja feito e o objetivo da tarefa também.
O alongamento fino e preciso, cujos os movimentos propostos
visam o alongamento de músculos da postura e tendões, como aquele exercício, onde
a professora propunha mexer o pescoço, os ombros, o quadril e os pés.
Muitos movimentos feitos ao longo das aulas eram completamente
diferentes do que se faz no quotidiano, como por exemplo o exercício do foco do
olhar ao som da música Caracol, de Augusto e Cid Campos.
Apesar de estes exercícios parecerem estranhos quando propostos, têm como fim a
gradual desconstrução de padrões motores inconscientes nocivos à estrutura psicofísica
do indivíduo.
Hoje ainda fiquei a conhecer melhor o meu corpo
É importante existir uma noção em relação ao nosso corpo e
aos nossos movimentos.
O pré-movimento está relacionado com o peso, à gravidade,
que existe mesmo antes de se iniciar no movimento. É ele que nos vai transmitir
a energia necessária e expressiva para o movimento que iremos executar. É o
pré-movimento
invisível que ativará os níveis mecânicos e afetivos da nossa organização.
Muitos dos exercícios propostos resultam na perceção dos movimentos
que vamos fazer e das sensações que são transmitidas para o nosso corpo, desde
as projeções, as alavancas, os rolamentos, os impulsos às massagens leves ou até
mesmo, “agressivas” à nossa pele.
Transbordo-me de sensações
Uma das aulas que mais me impulsionou sensações foi o ensaio da aula aberta, que infelizmente nunca aconteceu.
Este ensaio foi a minha aula favorita, pois foi o mais próximo
que tivemos de espetáculo e além disso foi ao ar livre, impulsionando-me inúmeras
sensações, incluindo a sensação da liberdade.
O ar fresco sentindo ao longo do meu corpo e rompendo a timidez.
Os cheiros da relva fresca, o tátil da mesma e da lama- tudo isto fez com que
me sentisse indestrutível, onde os meus movimentos eram armas e transmitiam-me poder.
Os movimentos no solo, como as alavancas e as projeções transmitiram-me
ainda mais carga expressiva. Os impulsos empurravam-me para todos os lugares, mas
com cuidado, pois não me podia aproximar dos meus colegas (a mensagem da nossa
performance era a pandemia).
As quedas provocadas pelas brincadeiras entre mim e a gravidade
aproximavam-me da Natureza, uma vez que ficava cada vez mais suja com lama e molhada
devido à chuva do dia anterior e à humidade da noite- foi uma experiência incrível!
Esta aula também me remeteu para a infância- quando ia para
o campo com os meus avós e fugia das galinhas e brincava com os patos, ou quando,
na escola, pisava inocentemente poças de água, junto com os meus amigos.
Sem dúvida que a minha memória esteve presente em inúmeros exercícios propostos nas aulas, e até foi a memória que me impulsionou inúmeras emoções enquanto decorriam os movimentos- a alegria quando me encontrava num local mágico ou até mesmo, as tristezas quando às vezes não acordamos tão felizes assim.
Rasgo a minha pele e transformo-me
Como é bom sentir a minha pele! Massajo-a até sentir a energia que se encontra escondida dentro do meu corpo, massajo os pés, sou agressiva e dura com as minhas pernas, com o meu quadril, com os meus ombros- acordem!
Estou de manga cava, sinto as minhas mãos frias nos meus braços,
nos meus cotovelos. Movimento-me com um impulso, senti todo o ar colar-se no
meu corpo, na minha pele. Paro, não sinto nada, porém ainda tenho energia armazenada
dentro de mim. Movimento-me de novo, deito-me no chão: projeto todo o meu corpo
com força para o chão, sinto o solo apoderar-se do meu corpo. Levanto-me e faço
a saudação ao sol: durante este exercício, massajo inúmeras partes do meu corpo
e faço lentamente muitos dos movimentos, de modo a que sinta tudo,
interiormente e exteriormente.
Performance Individual: entrei no meu mundo e levei os meus colegas comigo
Escolhi a música Replay, da Zendaya, pois além de tornar possível paragens, movimentos mais lentos e mais rápidos, é uma das músicas que mais danço no meu quarto, desde há muito tempo.
Deito-me, começo com movimentos leves, enquanto levanto a
perna, as minhas calças largas mostram as minhas pernas, sinto todo o ar fresco
apoderar-se do meu corpo e ao longo da performance lanço toda a energia que me consome.
O fôlego, o suor e o calor foram as sensações que mais
predominaram a minha performance, a energia não se esgotou, ainda tinha mais para
transmitir se a música fosse mais longa. Parece que aos poucos vou armazenando
energia para quando, finalmente me sentir livre, poder partilhar com todos.
Tento alcançar algo, salto, salto, salto, rodopio, rodopio,
rodopio e canto, canto, canto. Danço com toda a agressividade possível, mas ao
mesmo tempo o meu corpo é leve. Posso fazer o que quiser com ele, faço rolamentos
no chão guiados por pequenos impulsos. Sinto o solo nas minhas costas, na minha
lombar. Estico a perna para o alto- sempre foi um dos meus movimentos favoritos.
Já não estou aqui, estou no meu quarto que antes era somente frequentado por
mim, mas agora tem audiência- a minha turma.



Comentários
Postar um comentário