“Amar profundamente, mas testar volta e meia se ainda há pé.” - Catarina António

 

“Amar profundamente, mas testar volta e meia se ainda há pé.”

    Uma das frases que carrego comigo e aplico-a constantemente ao meu quotidiano. É uma frase que não se limita a falar só de amor. Aplica-se a tudo o que nós fazemos de corpo e alma.

    Em Corpo e Movimento Cénico também podemos aplicar esta frase, podemos mergulhar bem fundo, mas primeiro precisamos de conhecer os limites do nosso corpo para saber se “ainda há pé”. Conhecer cada músculo, cada movimento que possamos fazer, cada articulação, cada veia,  cada trauma que o nosso corpo possa ter... É conhecer-nos e dar-nos a conhecer.

    Assim se cria este processo de trabalho durante o semestre que, entretanto, acabou num abrir e fechar de olhos. Um processo que implica expor-nos, tanto ao ridículo como à poética, mas principalmente trata-se de autoconhecimento.

- Qual é o mínimo movimento que eu posso fazer? E o máximo?

- Que expressão devo usar durante este movimento?

- Que músculos tenho e quais são estimulados poucas vezes?

    Uma série de questões que só obtemos resposta se nos disponibilizarmos a aceitar o nosso corpo. E esta disciplina trouxe-me esse bocadinho que faltava em mim. Via o meu corpo somente como um conjunto de músculos e tendões que usava para o essencial, o que considero um dos meus maiores obstáculos, mas com o tempo, descobri que vai muito para além disso...


    O meu corpo é amor, é saudade, é riso, é tristeza, é fado. É através dele que eu posso expressar-me e mostrar o que por vezes, não consigo dizer. É preciso cuidar dele e amá-lo. Tudo isto, aprendi ao longo dos meses de trabalho sem me aperceber na dimensão gigante desta aprendizagem que, no fundo, pode mudar uma vida. 


    Um dos meus maiores dilemas nesta disciplina será sempre saber ligar a técnica com a poética. Este dilema deu-me muito trabalho pois em vários exercícios pedidos em aula, eu não sabia o que estava a fazer. Sentia-me perdida e sem pé. 

    Foi então que comecei a nadar para a costa e finalmente senti a areia nos meus pés… quer dizer, a lama nos meus pés. Sim, só me apercebi de tudo no dia em que ensaiámos no jardim do Polo dos Leões para a nossa aula aberta que infelizmente, não se realizou.

    Nesse ensaio, eu pude perceber que o problema da ligação da técnica com a poética, era eu. Parei por breves instantes e comecei a observar os meus colegas que, ao fazer o exercício, transmitiam-me a ideia de que saboreavam cada movimento, cada passo, cada nota musical. 

    Era isso que eu precisava. Observar. Há momentos em que, sem nos apercebermos, basta uma pausa e uma respiração para encontrarmos de novo o nosso rumo. Assim foi. Decidi que daquela vez, ia deixar de me preocupar com a técnica, pois essa já se encontrava interiorizada, e ia saborear ao máximo todas as sensações que me estimulavam naquele momento. 

    Os pés descalços na relva molhada, a lama que se escondia na relva fazendo-me escorregar, o vento frio e o sol a bater na minha pele.  E no fim pensei “Esta é a sensação que eu ando a perder por me preocupar demasiado?” 

    Repeti o exercício e com ele, voltou a mesma sensação. Finalmente, encontrei o que me faltava. Senti que estava a aprender tudo de novo, mas de forma correta. A partir desse  momento, comecei a explorar muito mais e a expressar-me ainda mais.

    Depois desse ensaio, comecei a aplicar a mesma técnica em todos os exercícios. Assim aprendi que podemos dar tudo de nós, mas saber o peso e a medida certa em cada situação.

     Dilema resolvido, hora de aplicá-lo!

    Decidi mostrar que já sabia lidar bem com essa situação e penso que o fiz em grande quando falamos da minha performance individual. Confesso que quando ouvi “performance individual” eu pensei: E AGORA? O QUE É QUE EU FAÇO? Calma Catarina, respira 3 vezes e pensa. 

Primeiro passo: O que é que eu quero transmitir?


    Pois… boa questão. Nem isso eu sabia. Após dias a deitar fumo de tanto pensar, comecei por reparar que talvez não seja essa a ideia. Trabalhei durante meses o autoconhecimento, vamos reformular a questão: O que é que o meu corpo pode transmitir? 

    Eu considero que os meus movimentos e a minha maneira de trabalhar o meu corpo, é algo minimalista, suave com movimentos leves e gosto bastante de trabalhar o toque. Tocar no meu corpo e transmitir confiança.

    Assim, faltava-me a canção. É claro que a primeira coisa que me veio à cabeça foi o fado. O fado é perfeito para este tipo de movimentos e podemos contar imensa coisa através dele, por vezes, até podemos contar sem palavras, basta uma guitarra portuguesa. E não esquecendo que sou uma portuguesa que dá muito valor ao que é nacional, decidi que era mesmo isto que eu queria. 
    
    Dava para trabalhar a técnica: o enraizamento, as pausas, a máscara, e dava também para trabalhar a parte poética, o que me levou para uma narrativa que me ajudou no contacto com o público, cativando-o para a minha performance.

 Para a performance escolhi a música "Fado Toninho" dos Deolinda. 





Foi um semestre com muitas emoções envolvidas, muitas aprendizagens mas principalmente, um semestre de evolução pessoal e por isso, só tenho a agradecer à Professora Renata de quem todos vamos sentir muitas saudades. 


- Catarina António -

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